Investigação sobre o vazio
Uma reflexão sobre questões que envolvem as aflições mentais
Este texto tem como objetivo estimular uma reflexão e estabelecer questões que envolvem as aflições mentais de uma comunidade em descontrolado crescimento. Os itinerantes, os sem endereço fixo, os moradores de rua.
Recente matéria do jornal Folha de São Paulo, (13/10/2021) mostra que o número de favelas dobrou nos últimos dez anos no Brasil e 20 milhões de pessoas passam fome. Estimo que seja imensa a quantidade de problemas relativos à saúde, muitos em decorrência da subnutrição, da ausência de saneamento básico, do descaso das políticas públicas, por exemplo. O número de pessoas que passou a viver na rua é bastante expressivo e não cessa de aumentar. Em decorrência da perda do lar, nossa grande referência, problemas se estabelecem e tendem a se agravar com o passar dos dias. Como reage a mente de uma pessoa que passa a viver/sobreviver na rua?
É possível manter a mente sã enquanto o corpo se deteriora?
Admitamos a possibilidade de um exame psíquico, quem tomaria essa inciativa? Quando? No mais das vezes em situações extremas, quando o insuportável alimenta as horas de um ser humano, ou a iniciativa cabe a alguém próximo, quem dera a um psicanalista numa ação particular. É senso comum dizer que conversas com amigos podem resolver, e sem custos. Ainda somos assim, “ainda somos os mesmos/ e vivemos como nossos país” alertou Belchior.
Quando me refiro à necessidade de exame psíquico, aponto para pessoas estabelecidas socialmente, as que vivem em casas, condomínios, trabalham para conseguir bens e segurança, ou, alguém cuida disso para elas, geralmente os pais. Mudemos de cenário. Chegamos às ruas, lugar de todos e de ninguém, o espaço sem perspectivas, sem segurança, onde as necessidades básicas jamais serão satisfeitas. Estamos diante de um morador de rua, um dos inúmeros reféns da ausência, um ser ignorado.
Dentre os vários aspectos que podem ser abordados, no momento elejo a pulsão como merecedora da atenção. Sua importância na teoria freudiana pode ser assim entendida: “(...) representante psíquico das excitações provenientes do interior do corpo”
(ZIMERMAN, 1999). Tensão que precisa ser extravasada. Volto à comunidade dos moradores de rua e me pergunto se alguém em constante sobressalto - as ruas são perigosas - consegue separar pulsão de vida e pulsão de morte? Embora admitidas de coexistirem, em se tratando de moradores de rua essas duas faces da pulsão enodam-se de maneira a raramente possibilitarem separação. Por vezes é necessário matar para sobreviver. “...em grande medida, o grau mais baixo da sobrevivência é matar. (MBEMBE,2018. p. 62)
Haveria objeto outro a permitir que a pulsão alcance seu objetivo? As pulsões do ego - autopreservação principalmente neste caso - se tornam evidentes.
Seriam essas pessoas, sem recursos financeiros, dignas da atenção da psicanálise, do(a) psicanalista? Como ajudá-las, investigá-las, compreendê-las? Seria possível curá-las? Muitas delas se negam a abordar o próprio passado. Conforme Lacan:
A história não é o passado. A história é o passado na medida em que é historiado no presente – historiado no presente porque foi vivido no passado. (LACAN,2009. p.22)
A psicanálise teria a capacidade de reconstituir o passado?
Quem se importaria com essas pessoas? Como definir suas questões traumáticas?
Ainda Lacan.
...o fato de que o sujeito revive, rememora, no sentido intuitivo da palavra, os eventos formadores da sua existência, não é, em si mesmo, tão importante. O que conta é o que ele disso reconstrói. (LACAN,2009. p. 23)
A quase inexistência da auto estima permite a reconstrução dessas pessoas presas em si?
Pode o Estado protegê-las? Percebe-se indícios dessa intenção? Foucault em Vigiar e punir descreve a mudança de objetivos nas condenações ao longo da história. Encarcerar o culpado a fim de reeducá-lo à sociedade é uma das vertentes mais difundidas. Atualmente, a punição travestiu-se de “vazio”, de descaso, de abandono, o cumprimento da pena ocorre a céu aberto, nas ruas, o delinquente arrasta sua mendicância a catar lixo, a se alimentar de restos, enquanto escapa-lhe por completo a dignidade. O morador de rua, o pobre de ontem enquanto ostentava emprego de salário mínimo, não passa de reflexo de uma sociedade despudoradamente capitalista que condena ao desprezo todo aquele que não está apto ao consumo.
Por outro lado, em meio a tamanha carência, hostilidade e vulnerabilidade, a violência de gênero não ocupa grande espaço nessa ausência de sociedade. O que permite dizer que mesmo em situação de pleno abandono ainda restam pontos interditos. Até mesmo a mente sofredora – “doente da cabeça” - se permite ordenar seu modo de vida ocupando o respeito ao outro lugar de destaque. O morador de rua, a quem a sociedade asséptica destina seu desprezo, desrespeito, repulsa e medo não perdeu completamente suas referências éticas e de convívio.
Moradores de rua, pessoas a serem reconstruídas, alguns instrumentos são óbvios, assistência social do Estado e preparação para o trabalho; outros ainda na expectativa que sistematizem sua atuação. Percebo aqui a importância da psicanálise. Mas que esta transcenda à simples escuta, que se afaste, mesmo que por pouco tempo, do conforto e segurança do consultório. Que saiba encontrar a realidade sob uma marquise, um viaduto, e muitas vezes mergulhada num buraco sob uma ponte como o caso que presenciei na cidade de Porto Alegre, na Av. Ipiranga. Nesse lugar sobrevive Clara, o que a levou a essa condição? Drogas, rejeição e a consequente ruptura social. Urge olharmos para outros mundos. Constatar e atuar num mundo não branco, mundo do indivíduo incapaz de pagar o trabalho do psicanalista, mundo da fome e do abandono, dejetos de uma sociedade objetificadora e individualista, descobrir subjetividades, subverter a lógica e reconstruir o mundo. O mundo até então esfacelado de uma pessoa. A psicanálise é capaz. Mas quantos(as) psicanalistas se dispõem a essa tarefa?
Luíz Horácio Rodrigues
Referências:LACAN,Jacques. O seminário, livro 1.Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2009
MBEMBE, Achille. Necropolítica. N-1 edições. São Paulo, 2018.
