A pandemia de Covid-19, que há mais de um ano vem matando pessoas mundo afora e, em especial no Brasil, trouxe à tona um debate ético que escancara características sombrias da personalidade humana: o debate sobre o quanto vale uma vida.

Muitas são as histórias sobre o preço que se paga pelo progresso, normalmente contabilizado em vidas humanas. Foi assim na construção de Itaipu, onde relatos dão conta de mais de 1000 trabalhadores mortos. Foi assim em Brasília, onde alguns historiadores afirmam existir corpos misturados ao concreto das estruturas. É assim ainda hoje, nos diversos acidentes de trabalho contabilizados, ou não, diariamente no mundo. Foi assim no desbravamento e colonização do centro-oeste e da Amazônia pelos gaúchos. Em todos os casos, uma reflexão crítica deveria nos levar à alguns questionamentos: morrer trabalhando vale a pena? E a pergunta fundamental: vale a pena para quem?

A Pandemia de Covid-19 já matou mais de 18 mil pessoas no RS. É como se o município de Arroio dos Ratos fosse dizimado por um tsunami. Você acha pouco? Bem, talvez você não more em Arroio dos Ratos ou não tenha familiares lá. Só isso explicaria o fato de alguém não se importar com isso. Se considerarmos que cada vítima da Covid-19 tivesse uma renda mensal de um salário mínimo, podemos concluir que ao menos R$ 195 milhões/ano deixarão de circular na economia gaúcha. Mas se constatarmos que muitas destas vítimas deixarão filhos, maridos e esposas, a sociedade terá que custear pensões e auxílios para os que ficaram. E se considerarmos que muitos dos que não morreram desenvolverão doenças físicas e psicológicas, caberá a sociedade custear também seus tratamentos. Ou seja, perder 18  mil vidas no RS vai custar muito caro. E nem sequer consideramos tudo que já fora investido em educação, saúde e segurança nessas pessoas que morreram, o que multiplicaria exponencialmente esses gastos. Lembrando que no Brasil já ultrapassamos 487 mil mortes.

Do ponto de vista humano, a pandemia já matou mães e pais, filhos e filhas, avós e avôs, colegas de trabalho, professores e professoras, amigos e amigas. Nesta perspectiva, não importa a quantidade. Nesta perspectiva, a soma de mortes é infinitamente maior que 15 mil. Mesmo que alguém possa ocupar o espaço deixado pelos que partiram, nunca conseguirão substituí-los nas relações afetivas. Diferentemente do que ocorre no posto de trabalho. Esta diferença é que faz existir duas pandemias, ou pelo menos duas estatísticas que podem ser traduzidas em duas frases antagônicas. A primeira defendida por quem perdeu pessoas próximas ou vê pessoas morrerem diariamente, sufocadas sem ar: FIQUE EM CASA. A segunda defendida por aqueles que se preocupam exclusivamente com economia: CHEGA DE FRESCURA E MIMIMI.

Pois bem, acredito que o debate entre a importância da vida e da economia é um falso dilema. Não há paradoxo porque não há vida sem economia (ao menos no modelo atual de organização da sociedade) e não há economia sem vida (em qualquer que seja o modelo de organização social). No último final de semana, assistimos estarrecidos manifestações em frente a hospitais, inclusive. Pessoas de verde amarelo misturadas com carros funerários transportando corpos. Pessoas lutando pelo direito de retomarem suas atividades econômicas enquanto outros lutavam para se manter vivos em leitos de UTI. Observando essas cenas, questionei-me as razões para que tais atos estivessem acontecendo.

Na engenharia, trabalhamos o conceito de causa e efeito. Entendo que a falta de leitos e o fechamento das atividades econômicas são efeitos, não causa do problema. Ou seja, abrir mais leitos e/ou retomar as atividades econômicas não resolverá o problema. Possivelmente irá agravá-lo. É como tomar o remédio para combater a febre e não atacar a infecção que a gerou. Comprovadamente, com base no que está acontecendo em países onde a vacinação avançou rapidamente, somente a imunização da população pode atacar a causa do problema. A pergunta que todos deveríamos nos fazer é: por que não temos vacinas disponíveis no Brasil? Quem deveria tê-las comprado e não o fez? Por que motivo não fez?

Resolver um problema tão complexo, como a pandemia, exige respostas simples. É tempo do governo federal governar. É tempo do estado proteger os cidadãos e garantir sua subsistência e dignidade. É tempo de desenvolver políticas públicas de manutenção das atividades econômicas e dos empregos. É tempo dos líderes liderarem. É inadmissível que um presidente da república relegue seu povo à sua própria sorte, declare que seu país está quebrado e que sequer ouça aqueles que tem maior capacidade intelectual, inclusive, para ajudar na resolução. É tempo de salvar vidas, e salvar vidas também é salvar a economia, sem a falsa dicotomia entre um e outro.

Em situações de crise, um líder que não ajuda a resolver o problema passa a ser parte do problema. Então, caríssimos leitores e leitoras, a verdadeira luta comum de todos nós é: VACINA JÁ!

Cléber Fernando Homem

Mestre em Educação